Sábado à noite, fim de culto. As pessoas começam a se levantar e cumprimentar àqueles que só veem uma ou duas vezes na semana. Outros permanecem sentados, pensativos no que acabaram de ouvir. O pregador ao caminhar para fora do salão da igreja é várias vezes interpelado, mas recebe a todos atenciosamente e com um sorriso no rosto. O grupo de louvor também cumprimenta algumas pessoas, mas se dirige ao lugar onde estão os instrumentos musicais para iniciar o desmonte dos equipamentos e guardá-los para o culto do domingo de manhã.
Cristina enrola os cabos e ajuda Paula com o contrabaixo.
“Mandou bem hoje, Paula. As aulas de baixo estão fazendo efeito, hein?”
“Obrigada, Cris. Peguei gosto, sabe?”
“Sei. Vem cá, vai fazer alguma coisa agora?”
“Nada, ia pra casa. Sei lá, ver um filme, fuçar na internet.”
“O calor tá forte, não sei se quero ficar em casa. Tá a fim de ir naquele bar perto de casa tomar uma cerveja?”
“Ai, quero, hein? Que bom que você convidou, tô precisando conversar.”
“Feito. Vou lá guardar os microfones e ver se mais alguém topa.”
“Só vou colocar isso no carro e já vamos, ok?”
Terminaram de guardar as coisas. Paula já esperava na calçada encostada no carro quando Cristina chegou.
“Acho que somos só nós duas. Os mais velhos não estão dispostos e os mais novos não podem beber e nem chegar tarde em casa.”
“Não tem problema, bora?”
“Bora.”
Chegaram ao bar, sentaram e pediram uma cerveja. Encheram os copos e brindaram. Paula virou o copo de uma só vez.
“Cuidado menina. Não vou carregar ninguém, hein?”
“Pode ficar tranquila. Eu precisava disso.”
“O que aconteceu?”
“Sabe o Rodrigo?”
“O que toca bateria?”
“É. O que toca bateria.”
“Sei.”
“Então, hoje no ensaio ele veio falar comigo.”
“Até que enfim ele criou coragem! Não é de hoje que ele te olha.”
“Eu sei, mas é que nunca dei chance, sabe?”
“Por que você é besta! Ele é tão bonitinho e um puta cara bacana! Ah, e excelente baterista.”
“E inteligente também.”
“Então, por que não dá chance pro menino?”
“Vou te contar uma coisa.”
“Eita! Vou pedir mais uma cerveja, parece que é sério.”
“E é. Tem uns cinco anos que eu e você nos conhecemos, certo?”
“Isso. Foi quando você começou a frequentar a igreja”
“Então, antes disso eu era muito diferente.”
“Mas e daí? Eu também era. Qual é o problema?”
“Cê não tá me entendendo. Eu era muito diferente.”
“Eu também. Minha mãe até fala que foi Cristo que mudou minha vida mesmo. Eu dava mó trabalho. Era terrível.”
“Cris, eu me chamava Saulo.”
Cristina se calou por um instante e arregalou os olhos.
“Como assim?”
“Vou tentar encurtar a história. Quando eu tinha quinze anos meus pais se mudaram pra França. Fui com eles. Até então eu era menino. Quer dizer, tinha corpo de menino, mas nunca me senti menino. Quando chegamos lá me assumi homossexual. Ninguém me conhecia mesmo. Achei mais fácil. Nunca tive problema com minha família sobre isso. Quando fiz vinte anos decidi fazer cirurgia de mudança de sexo. Minha família não se opôs e fiz. Fiquei contente com o resultado.”
“Deus do céu, que história! Espera que preciso ir ao banheiro”
“Tá bom.”
(…)
“Pronto, pode continuar.”
“Então, um ano após a cirurgia aceitei um convite de um amigo do trabalho e fui à igreja dele. Me converti na primeira vez que ouvi o evangelho. Fui bem recebida na igreja, mas um ano depois minha família decidiu voltar pro Brasil só que eu não era mais Saulo, era Paula. Na verdade, acho que sempre fui Paula, mas isso é outra coisa. Quando chegamos aqui eu procurei a igreja e comecei a me reunir com vocês.”
“Eu lembro quando você chegou. Tímida, de poucas palavras, mas conquistou todo mundo. Todos te amam lá”
“Eu sei, também os amo. Só que aí rolou esse lance com o Rodrigo. Não sei o que fazer agora.”
“Olha, pra mim você é, sempre foi e sempre será Paula. Penso que Deus também lhe enxerga assim. Isso não muda nada entre nós. Você vai continuar sendo minha amiga, vou continuar te amando e vai continuar participando das atividades da igreja. Agora sobre o Rodrigo, você que decide se é necessário contar isso pra ele. Eu, particularmente, penso que não precisa, mas você decide.”
“Não sei. Não seria mentir pra ele?”
“Não, por que seria?”
“Não sei. O duro é que também estou a fim dele, sabe?”
“Então, amiga, agradece a Deus que pintou uma pessoa bacana na sua vida. Que que cê falou pra ele hoje?”
“Ué, qual o fora cristão mais educado? Falei pra gente orar. Pedir a direção de Deus. Fiquei apavorada na hora.”
“Calma. Olha, já que falou pra orarem, espera essa semana e o procura. Até lá decide se vai contar ou não, mas não deixa esse menino escapar.”
Terminaram a cerveja, pagaram a conta e foram pra casa.
No sábado à tarde Paula e Rodrigo chegaram de mãos dadas para o ensaio. O pessoal começou a rir, fazer barulho e Cristina puxou as palmas. No intervalo do ensaio, Cristina chamou Paula para ir ao banheiro.
“Que lindo! Mas e aí, contou pra ele?”
“Contei.”
“Eita! E aí?”
“Ele foi tão compreensivo. Aí que me apaixonei mesmo. Me senti o Jack Lemmon no final do Quanto mais quente melhor.”
“Que bom! Tô muito feliz por você! Te disse que ele é bacana.”
Abraçaram-se, riram e voltaram para o ensaio.
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