Recalcitrando contra os aguilhões

Sábado à noite, fim de culto. As pessoas começam a se levantar e cumprimentar àqueles que só veem uma ou duas vezes na semana. Outros permanecem sentados, pensativos no que acabaram de ouvir. O pregador ao caminhar para fora do salão da igreja é várias vezes interpelado, mas recebe a todos atenciosamente e com um sorriso no rosto. O grupo de louvor também cumprimenta algumas pessoas, mas se dirige ao lugar onde estão os instrumentos musicais para iniciar o desmonte dos equipamentos e guardá-los para o culto do domingo de manhã.
Cristina enrola os cabos e ajuda Paula com o contrabaixo.
“Mandou bem hoje, Paula. As aulas de baixo estão fazendo efeito, hein?”
“Obrigada, Cris. Peguei gosto, sabe?”
“Sei. Vem cá, vai fazer alguma coisa agora?”
“Nada, ia pra casa. Sei lá, ver um filme, fuçar na internet.”
“O calor tá forte, não sei se quero ficar em casa. Tá a fim de ir naquele bar perto de casa tomar uma cerveja?”
“Ai, quero, hein? Que bom que você convidou, tô precisando conversar.”
“Feito. Vou lá guardar os microfones e ver se mais alguém topa.”
“Só vou colocar isso no carro e já vamos, ok?”
Terminaram de guardar as coisas. Paula já esperava na calçada encostada no carro quando Cristina chegou.
“Acho que somos só nós duas. Os mais velhos não estão dispostos e os mais novos não podem beber e nem chegar tarde em casa.”
“Não tem problema, bora?”
“Bora.”
Chegaram ao bar, sentaram e pediram uma cerveja. Encheram os copos e brindaram. Paula virou o copo de uma só vez.
“Cuidado menina. Não vou carregar ninguém, hein?”
“Pode ficar tranquila. Eu precisava disso.”
“O que aconteceu?”
“Sabe o Rodrigo?”
“O que toca bateria?”
“É. O que toca bateria.”
“Sei.”
“Então, hoje no ensaio ele veio falar comigo.”
“Até que enfim ele criou coragem! Não é de hoje que ele te olha.”
“Eu sei, mas é que nunca dei chance, sabe?”
“Por que você é besta! Ele é tão bonitinho e um puta cara bacana! Ah, e excelente baterista.”
“E inteligente também.”
“Então, por que não dá chance pro menino?”
“Vou te contar uma coisa.”
“Eita! Vou pedir mais uma cerveja, parece que é sério.”
“E é. Tem uns cinco anos que eu e você nos conhecemos, certo?”
“Isso. Foi quando você começou a frequentar a igreja”
“Então, antes disso eu era muito diferente.”
“Mas e daí? Eu também era. Qual é o problema?”
“Cê não tá me entendendo. Eu era muito diferente.”
“Eu também. Minha mãe até fala que foi Cristo que mudou minha vida mesmo. Eu dava mó trabalho. Era terrível.”
“Cris, eu me chamava Saulo.”
Cristina se calou por um instante e arregalou os olhos.
“Como assim?”
“Vou tentar encurtar a história. Quando eu tinha quinze anos meus pais se mudaram pra França. Fui com eles. Até então eu era menino. Quer dizer, tinha corpo de menino, mas nunca me senti menino. Quando chegamos lá me assumi homossexual. Ninguém me conhecia mesmo. Achei mais fácil. Nunca tive problema com minha família sobre isso. Quando fiz vinte anos decidi fazer cirurgia de mudança de sexo. Minha família não se opôs e fiz. Fiquei contente com o resultado.”
“Deus do céu, que história! Espera que preciso ir ao banheiro”
“Tá bom.”
(…)
“Pronto, pode continuar.”
“Então, um ano após a cirurgia aceitei um convite de um amigo do trabalho e fui à igreja dele. Me converti na primeira vez que ouvi o evangelho. Fui bem recebida na igreja, mas um ano depois minha família decidiu voltar pro Brasil só que eu não era mais Saulo, era Paula. Na verdade, acho que sempre fui Paula, mas isso é outra coisa. Quando chegamos aqui eu procurei a igreja e comecei a me reunir com vocês.”
“Eu lembro quando você chegou. Tímida, de poucas palavras, mas conquistou todo mundo. Todos te amam lá”
“Eu sei, também os amo. Só que aí rolou esse lance com o Rodrigo. Não sei o que fazer agora.”
“Olha, pra mim você é, sempre foi e sempre será Paula. Penso que Deus também lhe enxerga assim. Isso não muda nada entre nós. Você vai continuar sendo minha amiga, vou continuar te amando e vai continuar participando das atividades da igreja. Agora sobre o Rodrigo, você que decide se é necessário contar isso pra ele. Eu, particularmente, penso que não precisa, mas você decide.”
“Não sei. Não seria mentir pra ele?”
“Não, por que seria?”
“Não sei. O duro é que também estou a fim dele, sabe?”
“Então, amiga, agradece a Deus que pintou uma pessoa bacana na sua vida. Que que cê falou pra ele hoje?”
“Ué, qual o fora cristão mais educado? Falei pra gente orar. Pedir a direção de Deus. Fiquei apavorada na hora.”
“Calma. Olha, já que falou pra orarem, espera essa semana e o procura. Até lá decide se vai contar ou não, mas não deixa esse menino escapar.”
Terminaram a cerveja, pagaram a conta e foram pra casa.
No sábado à tarde Paula e Rodrigo chegaram de mãos dadas para o ensaio. O pessoal começou a rir, fazer barulho e Cristina puxou as palmas. No intervalo do ensaio, Cristina chamou Paula para ir ao banheiro.
“Que lindo! Mas e aí, contou pra ele?”
“Contei.”
“Eita! E aí?”
“Ele foi tão compreensivo. Aí que me apaixonei mesmo. Me senti o Jack Lemmon no final do Quanto mais quente melhor.”
“Que bom! Tô muito feliz por você! Te disse que ele é bacana.”
Abraçaram-se, riram e voltaram para o ensaio.

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Mega da virada

Não sou de fazer apostas ou jogar na loteria, mas de uns tempos pra cá resolvi que faria um jogo ao menos uma vez por ano. Decidi que a mega da virada seria o meu jogo anual, se a sorte quisesse sorrir pra mim teria essa oportunidade.
Já tinha alguns anos que jogava, mas nem chegava perto do resultado. Teve um ano que consegui não acertar nenhum número e fiquei a pensar se quem não acerta nada mereceria um prêmio também.
Uma amiga me contou que morava perto de uma mulher que adivinhava os resultados do jogo do bicho. Pensei comigo: se ela adivinha bicho pode adivinhar os números também!
O pessoal que mora comigo debochou, falou que era bobagem, mas o método da mulher era tão particular que fui até a casa dela só pra presenciar o acontecimento.
Ela passava um café, colocava na xícara e logo após riscava um fósforo e o apagava no café. Segundo ela, era naquele momento que via as coisas. Aquele efeito produzido pelo fósforo apagado no café que conversava com ela.
“Olha, nunca fiz isso com números, com bicho dá certo.”
“Tenta, por favor.”
Ela olhou, olhou e de repente engatou a falar números. Fiquei espantado e comecei a anotar. Quando terminei de anotar ela olhou pra mim e me deu a xícara. Entendi que era para eu beber e bebi. Ela sorriu. Perguntei quanto custava o trabalho realizado, mas ela não quis receber. Olhei pra ela e disse que se eu ganhasse lhe faria um bom agrado.
Fui correndo pra lotérica, fiz o jogo e voltei pra casa já fazendo planos com o prêmio que receberia.
Em função de uns compromissos, não fiquei em casa no momento do sorteio das dezenas e por isso pedi para o pessoal anotar pra mim o resultado.
Quando eu cheguei fui logo perguntando se eles haviam anotado o resultado do sorteio.
“Anotamos sim, o resultado está lá na sua escrivaninha no seu quarto”
Corri para o quarto, puxei o jogo da gaveta e comecei a conferir. Quase que não acreditei. Levantei,mas minhas pernas bambearam, sentei de novo. A voz falhou, os olhos se encheram de lágrimas, conferi mais uma vez.
“PUTAQUEPARIU! CARALHO! FILHO DA PUTA! GANHEI! GANHEI! AHH! GANHEI!
Pulei em cima da cama e comecei a destruir o quarto como um rockstar entediado em quarto de hotel. Com o barulho todos correram para o quarto para ver o que estava acontecendo
“Pelo amor de Deus, pára com isso!”
“AH! GANHEI! FILHO DA PUTA! GANHEI!
“Calma, não destrói nada! Calma!
“VAI TOMAR NO CU! GANHEI”
Até que me seguraram.
“Olha, calma. A gente precisa te falar uma coisa”
“Me solta, falar o quê?”
“Desculpa”
“Desculpa por quê? Fala logo!”
“Então, na verdade esse aí não é o resultado. A gente sabia que seu jogo estava na gaveta e copiamos os mesmo números em outro papel pra você conferir. O resultado mesmo é esse aqui.”
“Vocês estão me zuando, né?”
Entregaram um papel na minha mão, mas eu amassei antes de ler e joguei longe.
Liguei o computador e fui conferir o resultado. Faltaram cinco dezenas para eu ganhar. Olhei bem pra eles, olhei pro jogo, olhei pro computador e resolvi que ali não poderia mais viver. Comecei a fazer as malas e saí sem se despedir de ninguém.
Hoje minha esposa e eu vivemos uma vida razoável ajudando as pessoas a ganhar no jogo do bicho.

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Migalhas

Abriu os olhos devagar e se assustou. Aquela não era a sua cama e nem o seu quarto.
“Taqueopariu! Dormi aqui” Pensou, enquanto retirava com cuidado o braço de cima do corpo dele.
“Não acredito que dormi aqui. E ainda abraçada com ele!”
Levantou-se, recolheu as roupas espalhadas pelo chão, saiu do quarto, fechou a porta com cuidado e foi em direção ao banheiro.
“Acho que vou tomar um banho. Fudida por fudida, truco.”
Pegou a toalha, separou as roupas, fechou o box e abriu o chuveiro. Ficou um tempo deixando a água correr pelo seu corpo.
“O cabelo dele é diferente do meu, não gosto desse xampu. Não deveria ter molhado o cabelo. Não deveria ter inventado essa de tomar banho. Aliás, não deveria nem estar aqui! Nem me dei conta. Quando vi já era de manhã, ele dormia calmo e com uma expressão feliz no rosto. Não posso negar que gostei do que vi. É difícil eu ver esse tipo de coisa, costumo ir embora antes deles dormirem ou durmo antes.”
Desligou o chuveiro, se enxugou, vestiu a roupa da noite anterior, se maquiou e foi para cozinha. Fez uma xícara de café e olhou a geladeira.
“Pão de sete grãos, torrada integral, iogurte, margarina, requeijão e maionese light, cereal, leite semidesnatado. Credo! Parece minha geladeira.”
Era bem cedo de uma manhã bonita. A luz do sol entrava pela cozinha e a atingia. Ela estava sentada passando requeijão em uma torrada.
“Não gosto de fazer isso. Mas só percebo que não é tão bom e que não valeria tanto a pena depois que faço. Antes de acontecer tenho a impressão que será muito bom, fico excitada, me divirto, mas quando chega esse momento eu, sinceramente, gostaria de não ter feito. A única coisa bacana é perceber que alguém ficou feliz.”
“Ele não diz nada, mas sei que ele não gosta muito que saio sem ele, noto pelo jeito de olhar, no tom da voz. Ele não percebe que eu sou carente, muito carente. E quando ele viaja fica pior. Dou para os outros aquilo que sobra do que dou pra ele. Não quero dar para os outros. Quero que ele fique com tudo, que não deixe restar nada. Que não me sobre tempo para os outros. Quero mesmo é que ele me ligue todos os dias, me envie mensagens no celular, passe na minha casa só pra dizer oi, tomar um copo de suco e ir embora. Que me envie e-mails pornográficos. Interrompa meu sono ou qualquer outra coisa que eu estiver fazendo para me dizer que está vindo para me ver e transar comigo. Com um tesão que não pode esperar.”
“Acho que ele nunca vai ter esse sentimento de urgência. Nunca vai entender.”
“Nem vou falar pra ele que isso aconteceu. Se ele souber é capaz de pensar que não senti tanta falta dele e não se importar em me deixar sozinha por tanto tempo novamente.”
Levantou-se, conferiu a bolsa e foi embora deixando um box molhado, uma xícara de café com uma marca de batom e migalhas sobre a mesa.

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Club Silêncio

Ao telefone:

“Oi Sá!”
“Oi Lilian, tudo bem?”
“Tudo. Com que roupa você vai?”
“Não sei ainda. Tô me vestindo agora”
“Eu estou nervosa”
“Nervosa?”
“É. Um pouco ansiosa também”
“Fica calma. Está com medo de alguma coisa?”
“Ai, não sei.”
“Olha, calma. Nós vamos pra conhecer, não é mesmo?”
“É”
“O que vocês combinaram?”
“Que só iríamos conhecer”
“Fica tranquila. Confia no Caio, não confia?”
“Confio”
“É só uma balada. Relaxa”
“É verdade… Olha, já estamos saindo daqui. O Caio já está ligando o carro. Beijo, até”
“Beijo”

Lilian olhava a maquiagem no espelho do quebra sol do carro quando Caio estacionava em frente à casa de Sabina e Tomas. Saíram do carro e foram entrando na casa

“Estamos entrando. Estão prontos?”
Sabina os cumprimentou na sala.
“O Tomas está terminando de fazer a barba, mas já estou pronta”
Lilian a olhou de cima a baixo e disse:
“Você vai assim?”
“Estou feia?”
“Não. Está bonita, mas estou me sentido muito puta perto de você”
“Quer que eu troque de roupa?”
“Não, eu quero voltar pra casa e trocar de roupa”
Caio interrompeu
“Nem pensar! Olha lá, o Tomas já está pronto. Vamos embora”

Ao entrarem no carro, antes de dar a partida, Caio disse:

“Vamos fazer um acordo?”
“Que acordo?” Perguntou Tomas.
“Não sei. Tipo um código pra nós. Não nos separarmos. Um cuidar do outro”

Sabina colocou o corpo para frente e ficou entre os dois bancos dianteiros do carro.

“Caio, calma. A gente vai lá ver como é. Acho que ninguém vai nos obrigar a fazer nada. Vai ter música e é open bar. A gente dança, bebe e ri, feito o acordo?”

“Feito”. Caio disse acenando com a cabeça e ligando o carro.
Uma boate como qualquer outra. Nada de muito extravagante. Pessoas bem vestidas, mas não bonitas como imaginavam. Pegaram bebidas, sentaram e ficaram observando por um tempo. Observaram que uma mulher dançava de maneira espontânea e alegre, sem se preocupar se outras pessoas estivessem olhando. Isso a deixava muito provocante. Lilian olhou pra Sabina e com os olhos a convidou pra dançar. Sabina levantou e começaram a dançar. Caio e Tomas continuaram sentados bebendo. Um olhou para o outro, riram e ficaram a observar as duas dançando e se insinuando uma para a outra e para a mesa onde eles estavam sentados.
A moça que dançava sozinha logo atraiu um considerável número de pessoas quando começou a tirar a roupa. Lilian e Sabina riram, se aproximaram e se beijaram. Caio quase engasgou com a bebida, Tomas riu.  O beijo empolgou, elas começaram a tirar as roupas uma da outra e lançar na direção da mesa onde eles estavam. Caio ameaçou levantar, mas Tomas o segurou.
Beijavam-se intensamente. Os corpos se confundiam com mãos deslizando por pernas, bundas, costas e seios. Tocando e acariciando, lambendo e beijando até que deitaram em um sofá e começaram a se chupar.  Lilian fez com que Sabina ficasse deitada com as pernas abertas e com a barriga para cima. E começou acariciar com a língua  e os lábios a região em volta do clitóris de Sabina que aos poucos começou a gemer e mexer o quadril mais intensamente. Lilian iniciou com a língua movimentos leves, precisos e lentos no clitóris de cima para baixo, horizontalmente e circulares, aumentando a pressão e a velocidade aos poucos. Enquanto sua língua trabalhava a provocava passando a ponta dos dedos na entrada da buceta e do cu. Algumas pessoas paravam e olhavam, mas seguiam em direção ao lugar onde a primeira moça dançava. Ela já havia agregado uma moça e mais três rapazes. O espetáculo parecia ser mais interessante.
Inverteram as posições e agora era Lilian quem recebia os carinhos de Sabina.
Caio não agüentou e se aproximou. Elas levantaram a cabeça, esbanjavam tranquilidade, começaram a tirar sua roupa e acenaram para Tomas o chamando para participar também.
Saíram da boate se recompondo. Entraram no carro, passaram os cintos de segurança e se olharam. A natural ausência de palavras que fora trilha sonora da noite tornou-se um tanto constrangedora durante os quatros segundos em silêncio que permaneceram se olhando dentro do carro desligado. Até que começaram a gargalhar e Caio deu partida no carro.

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Cuidado

Quando estava terminando sua exposição, já nos agradecimentos, sentiu o celular vibrar. Retirou do bolso enquanto falava e olhou quem era.
“Muito obrigado, encerro minha apresentação por aqui. Desculpe, preciso atender. É importante”
Saiu do auditório ouvindo as palmas.
“Oi Carol”
“Oi amor. Olha, a Patrícia está indo pra rodoviária agora, vou aproveitar a carona”
“Tudo bem, quando chegar lá me liga”
“Ligo. Beijo.”
“Beijo”
Voltou para o auditório para recolher suas coisas.
“Parabéns pela apresentação, senhor Freitas. Todos elogiaram.” Disse a secretária, enquanto retirava a bandeja com as xícaras de café.
“Obrigado, Soraia”
Freitas com o pensamento longe e organizando suas coisas não notava o olhar desejoso de Soraia.
“Tchau Soraia, bom fim de semana.”
“Obrigada. Para o Senhor também”
“Obrigado”
Saiu da sala e após 4 passos retornou.
“Vai fazer o quê depois do trabalho, Soraia?”
Soraia assustada com o retorno inesperado responde.
“Nada. Vou pra casa da minha mãe. Ela não está bem de saúde, sabe?”
“Entendo. Melhoras para sua mãe”
“Obrigada”
Freitas caminha até o estacionamento, entra no carro, pega o telefone e liga para Maurício.
“Alô, Maurício?”
“Fala Freitas! Tudo bem?”
“Tudo beleza!”
“Onde você está?”
“Estou aqui no bar do Geriba, vem pra cá”
“Beleza, estou indo”
“Vem mesmo?”
“Ué, não é pra ir?”
“Claro, é que você sempre recusa os convites que hoje assustei, mas vem sim, tá bom aqui.”
“Ok. Daqui a pouco estou aí”
Freitas passou em frente ao bar procurando vaga para estacionar e viu Maurício e Arnaldo em uma mesa na calçada perto da porta. Estacionou o carro, pensou em voltar para casa, mas foi até o bar.
“Grande Freitas!” Disse Maurício se levantando e cumprimentando o amigo.
“E aí, tudo bem?” Disse Freitas calmo.
“Ótimo! Essa é a melhor hora da semana! É o momento que estamos mais longe de voltar ao trabalho” Disse Arnaldo já enchendo o copo de Freitas com cerveja.
“É, hoje é sexta-feira. A tão esperada sexta-feira. Às vezes eu penso que vocês vivem em função disso aqui” Freitas iria continuar, mas foi interrompido por Maurício.
“Não vai filosofar agora, vai? A que devemos a honra da sua presença na nossa mesa nessa humilde espelunca?”
“A Carol foi pra um congresso. Mal nos falamos essa semana”
“Você está trabalhando muito, cara. Precisa relaxar um pouco. Aliás, com licença que eu vou relaxar um pouco no bilhar com o pessoal ali. Depois vocês entram de dupla” Arnaldo engoliu toda a cerveja do copo em um único gole e se levantou.
“Acho que o Arnaldo está certo, viu Freitas? Você trabalha demais. Nem me lembro quando foi a última vez que veio no bar com a gente”
“O trabalho não tem nada a ver com o bar. Não venho porque a Carol não gosta”
“Não acredito que a Carol proíbe você de vir”
“Não. Ela não proíbe nada. Ela nem comenta, mas sei que ela não gosta que eu beba”
“Mas não precisa beber”
“Tem graça vir aqui, ver vocês bêbados e esse povo todo em estágio de incubação de depressão e não beber?”
“Mas uma coisa é ela não gostar, outra é ela proibir”
“Maurício, é simples. A Fer não gosta de homem barbudo, certo?”
“Certo”
“Você deixa a barba crescer?”
“Não. Faço três vezes por semana”
“É isso. Tem coisas que a gente faz ou deixa de fazer só por saber que desagrada o outro. Porque o outro é importante pra gente”
“É importante, mas não podemos viver em função do outro”
“Não digo viver em função do outro, mas você é o quê sem o outro?”
“Acho que você já está bêbado. Filosofando alto! E que papo é esse que as pessoas aqui são todos depressivos em potencial?”
“Todos somos, mas tem alguns que são mais perigosos. Ou você acha que se esse povo tivesse outra coisa com o que se preocupar e cuidar estariam aqui?”
“Não sei”
“Você acha que se a Carol estivesse em casa eu estaria aqui?”
“Também não é assim”
“Claro, tem as exceções. Tem os que vêm uma vez ou outra, mas não tenho dúvidas que os que estão sempre por aqui tem algum tipo de problema”
“Ei! Eu estou sempre aqui”
“Depois que começou a trabalhar com a gente e depois que começou a namorar a Fer aumentou, diminuiu ou manteve a mesma frenquência de visitas aqui?”
“Diminuiu. Acho que você tem um pouco de razão”
“E você também tem”
“Tenho o quê?”
“Razão quando disse que já to bêbado. Acho que vou embora”
“Já? Espera passar um pouco. E aquela sua secretária, hein?”
“Ela é bonita, né?
“Bonito é você! Ela é linda! E te dá mole pra caramba”
“Que nada, fui puxar papo com ela antes de vir pra cá e ela me deu mó corte”
“Você tá brincando!”
“Verdade. Disse que iria cuidar da mãe. Pode?”
“Vai ver a mãe está doente mesmo”
“Vai saber… Enfim, agora eu vou. Se eu ficar bebo mais. E fica tranqüilo que eu bebo, mas chego em casa. Aí a minha parte da conta. Dá um abraço no Arnaldo”
“Pode deixar. Vou daqui a pouco também, marquei com a Fer mais tarde”
“Aí garoto! Então pára de beber!” Disse Freitas caminhando em direção ao carro.
Foi dirigindo devagar quase apoiando a cabeça no volante que segurava firme com as duas mãos até chegar em casa.
Abriu a porta e sentiu o telefone vibrar, mas deixou tocar. Na caixa postal uma mensagem da Carol.
“Amor? Deve estar no banho, né? Olha, cheguei. Tá tudo certo. Volto amanhã no final da tarde. Não fica aí sozinho, não. Sai um pouco. Liga pra alguém. Tá calor, deve ter alguma coisa interessante pra fazer hoje. Beijo, amo você.”

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Festa entre amigos

Era a primeira vez que Clara participaria de uma festa dos amigos do Aurélio. Estava completamente perdida em meio às roupas que atirara para fora do guardarroupa.
“Aquele cantor de samba bem sabia como é esse drama de não saber que roupa vestir”, pensou olhando para as roupas sobre a cama.
“Não os conheço, não sei como são. Não sei como são essas festas, como eles se vestem”.
Depois de alguns minutos decidiu.
“Vou bem básica, é uma festa entre amigos, não é mesmo? A festa é às cinco da tarde. Quem é que faz festa, sem ser de criança, às cinco da tarde de um sábado? Ai se ele não tivesse mãos grandes! Enfim, se estiverem mais arrumados, eu poso de descolada”.
Estava calçando as sandálias quando ouviu o interfone soar e correu para atender com uma sandália nas mãos e um pé calçado.
“Oi! Sou eu. Está pronta?”
“Estou quase, quer entrar?”
“Não, espero aqui fora. Não vai demorar, né?”
“Não, é rapidinho”
“Estou esperando então”
“Já vou”
Correu calçar o outro pé. “Por que ele não entrou? Assim me sinto pressionada. Nem estou tão atrasada”
Deu uma última olhada no espelho, apanhou a bolsa e saiu.
Aurélio a recebeu com um sorriso. Abraçou-a forte e a beijou no rosto.
Ela viu que ele carregava uma sacola com umas garrafas e perguntou:
“Era pra cada um levar sua bebida? Eu não estou levando nada”
“Não, a gente faz festas assim: fica cada um escalado pra levar alguma coisa. Uns levam as bebidas e outros levam algo pra comer. Um prato de salgado, um bolo, qualquer coisa”
“Mas eu não estou levando nada. Você não me disse que era assim”
“Não, fica tranquila. É a primeira vez que você vai, não precisa levar nada. Você é convidada”
“Vou ficar envergonhada”
“Relaxa, você vai adorar o pessoal”
Aurélio sorrindo beijou sua boca e caminharam de mãos dadas em direção ao ponto de ônibus mais próximo.
O ônibus não demorou a chegar ao ponto, mas a viagem até a casa onde seria a festa foi longa. Aurélio olhava calmo pela janela fazia comentários amenos. Ela respondia simpática, mas a cada esquina se perguntava se estava chegando.
Era uma casa antiga com varanda, cômodos grandes e muitos quartos.
“Aê! Chegaram!” Gritou Rodolpho que estava sentado na varanda tocando violão.
Ao entrar, Clara notou que o jeito básico dela era bem sofisticado em comparação ao resto do pessoal. Gostou como foi recebida. Com sinceridade, sorrisos, carinhos e abraços fortes e demorados. Achou estranho que eles se cumprimentavam beijando-se na boca, mas guardou o ciúme.
“Sai da frente que está quente!” Disse Denise cortando a sala com uma assadeira em mãos.
“Uau! Você fez aquele quibe de forno!” Disse Aurélio. “Vou convidar a Clara mais vezes.”
“Vamos ver se ela vai gostar, né?”
“Se estiver tão gostoso quanto cheiroso, vou sim!”
“É de soja recheado com tofu, você gosta?”
“Nunca comi. Quero experimentar”
Enquanto comiam e conversam foram chegando mais pessoas, totalizando doze.
Logo após comerem, Bia se levantou e colocou um disco na vitrola. Ella Fitzgerald e Louis Armstrong cantando foi a deixa para se levantarem e começarem a dançar em pares. Aurélio puxou Clara que relutou um pouco, mas cedeu e dançaram juntos. Ao findar a primeira música trocaram de parceiros. Aurélio foi dançar com Bia e Denise convidou Clara. Ela achou esquisito, mas o vinho a ajudou a perder a inibição. Estavam rindo quando olhou para o lado e viu Aurélio e Bia se beijando na boca, mas não eram os selinhos dos cumprimentos.
Sem entender, parou de dançar, pediu licença à Denise, pegou sua bolsa e começou a caminhar para fora. Aurélio a viu saindo, Denise fez sinal para que ele fosse atrás dela.
“Está indo embora?”
“Não sou obrigada a passar por isso”
“Isso o quê?”
Era sincera a pergunta de Aurélio.
“Por que me convidou pra vir?”
“Não estou entendendo”
“Achei que estávamos nos dando bem”
“E não estamos mais?”
“Caralho, Aurélio! Eu vi você se atracando com a Bia!”
“A gente só estava se beijando”
“Só?”
“É, qual o problema?”
“Qual o problema? Acho que eu sou o problema, né?”
“O que aconteceu com você?”
“Nada! Eu só não acho normal virmos juntos para uma festa e você ficar com outra na minha frente, SÓ isso!”
“Ah, Clara. É isso? Que bobagem!”
“Por que bobagem?”
“Bia e eu somos amigos”
“Amigos que se beijam na boca daquele jeito? Os selinhos até vá lá. Achei até bonitinho, mas daquele jeito já é demais, né?”
“Eu já disse, somos amigos”
“E amigos se beijam desse jeito”
“Sim, por que não?”
“Porque não, ué?”
“Amizade é amor, Clarinha”
“Também acho, mas não esse amor. Daqui a pouco vai me dizer que vocês fodem um ao outro por amizade”
“Isso”
“Não! Eu saí da minha casa, peguei um ônibus que não chegava nunca, comi comida vegetariana, dancei uma música de velho com uma mulher e ainda eu tenho que ouvir isso? Não, me desculpe, mas não sou obrigada”
“Não estou entendendo aonde quer chegar”
“Eu quero chegar à minha casa. Já deu pra mim por hoje”
“Não, fica”
“Vai dançar só comigo?”
“Se você quiser, mas acho um desperdício. Por que vai querer dançar só comigo com mais dez pessoas na casa com quem você pode dançar?”
“É que você não fica só na dança”
“Tá, eu prometo que só danço, não faço mais nada”
“Quero ver você se controlar com todas aquelas meninas magras e bonitas dançando junto de você, se esfregando”
“Quer apostar? Por você eu não fico nem de pau duro”
“Você? Duvido!”
“Por que?”
“Você não é priápico, mas está sempre alerta”
“Por você eu até broxo”
“Ah! Ah! Ah! Duvido! Aquela Denise é sexy até dançando o hino nacional. Duvido que não fique excitado!”
“Clara, nós somos amigos. Isso é uma besteira, mas já que quer ver, vamos até lá, eu tiro a Denise pra dançar e lhe mostro que não fico nem de pau duro”
“Vou voltar só pra ver isso. Já nem mais sei o que fazer essa noite mesmo”
Voltaram para a casa de mãos dadas, passaram pela varanda onde alguns conversavam, atravessaram um cômodo onde alguns se beijavam e bebiam e chegaram ao cômodo onde os outros dançavam. Era Paulinho da Viola quem cantava na vitrola. Aurélio deixou seus dedos deslizarem pelos dedos de Clara e foi até Denise que sorriu e começou a dançar com ele. Denise sambava muito bem.Um rebolado incrível. Clara ficou a observar e aos poucos ficava mais emputecida. Não se conteve. Aproximou-se do casal, sorriu e colocou a mão no pau de Aurélio pra ver se ele havia conseguido. Para sua surpresa, de fato, não estava duro. Ficou possessa. Saiu pisando duro, pegou sua bolsa, olhou para Aurélio e disse antes de ir embora:
“Você é veado, Aurélio!”

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Pequeno duo

Chico gostava de ler de madrugada. Segundo ele, o silêncio e o clima deixavam qualquer leitura mais interessante. Sentado na cama, concentrado na leitura o telefone tocou.
“Alô”
“Oi! Acordei você?”
“Oi, Rita. Não, estava lendo um pouco”
“Sabia que você estaria acordado também”
“Você está bem?”
“Estou sim. Estava pensando, as pessoas dormem muito”
“Precisa dormir, né?”
“É, precisa, mas não muito. Pense em quantas pessoas estão dormindo agora. Sem fazer nada de produtivo ou emocionante”
“Tudo na vida precisa ser produtivo e emocionante o tempo todo?”
“Precisa?”
“Eu perguntei”
“Não sei”
“Me ligou pra dizer alguma coisa?”
“Não sei”
Rita nua em pé encostada na janela de seu apartamento, olhava para fora e fez silêncio. Chico perguntou novamente:
“Você está bem mesmo?”
“Estou. Acabei de tomar banho.A noite está linda. Queria fazer alguma coisa”
“Já passa das duas da manhã, vai ser difícil encontrar algo pra fazer a essa hora nessa cidade”
“Quer tocar um pouco?”
“Não sei, seus vizinhos não vão reclamar?”
“Podemos tocar aí na sua casa, posso ir até aí?”
“Pode, mas como vai trazer o cello? Seu carro já saiu do mecânico?”
“Já. Está ótimo agora”
“Ficou caro?”
“Não muito. Menos do que eu esperava”
“Que bom. Então vem pra cá.”
“Em quinze minutos estou aí. Beijo”
“Beijo”

Não eram incomuns os encontros de Rita e Chico em horários pouco usuais, mas Chico achou que havia algo de estranho na voz de Rita. Logo em seguida julgou ser bobagem da sua cabeça.
“Rita é assim mesmo”. Pensou.
Quinze minutos após a conversa pelo telefone, Chico ouviu soar a campainha. Foi até o portão recebê-la.
Rita era muito bonita. Morena de pele clara e uniforme, de baixa estatura, cabelos cacheados, magra, mas sexy. Estava linda e elegante como poucas mulheres conseguem ser vestindo uma blusa regata de alça sem sutiã, um short curto e rasteirinha. Carregava o violoncelo e uma mochila com as partituras.
“Deus, como ela é linda!” Pensou Chico, mas não falou e nem demonstrou enquanto dizia:
“Entra, eu te ajudo com as coisas”. Rita entrou e foi se posicionando pra tocar quando Chico foi até a cozinha e disse:
“Está com sorte, tem um vinho bom aqui, está a fim?”
“Quero sim. Seu violino está afinado?”
“Está, estudei um pouco hoje à tarde”. Disse Chico servindo o vinho à Rita.
Ela pegou a taça, esperou ele se servir, ergueu a taça esperando o brinde e disse:
“À noite!”
“À noite”. Disse Chico brindando olhando nos olhos de Rita.
“O que vamos tocar?” Disse Rita.
“Não sei, você que deu a ideia. Diz algo aí”
“Ouvi aquele duo do Cláudio Santoro hoje, estou com a partitura aqui, quer tentar?”
“Acho um pouco triste. Tem outro aí?”
“Tem aquele do Guerra Peixe”
“O Pequeno duo? De que ano é mesmo?”
“1946”
“Ih, vanguarda demais pra essas horas. Que tal aquele Andantino do Alessandro Rolla? Eu tenho aqui”
“É bonito, hein? Vamos tentar”
Após um curto período, Rita já tocava com os olhos fechados. Seus movimentos hipnotizavam Chico que a imaginava nua por trás do violoncelo.
Quando a música acabou Rita abriu os olhos e notou como Chico a observava. Ela também estava excitada e disse:
“Quero ter um filho seu”
“Quê?”
“Quero ter um filho seu”
“Definitivamente você não está bem”
“Estou sim, muito bem por sinal”. Disse com um sorriso malicioso.
“Mas eu não quero ter filho”
“Você não vai ter. Eu vou ter. Você só vai me ajudar fazer”
“Mas se eu fizer será meu também, não?”
“Em tese sim, mas fica tranquilo, ele será só meu”
“E quando a criança crescer e quiser saber quem é o pai?”
“Digo que já morreu”
“Vai me matar?”
“Não, que pergunta mais descabida”
“Você sabe que nunca pretendi ter filho”
Rita não disse mais nada, se levantou, desabotoou o short e começou a caminhar em sua direção olhando-o fixamente. Estava sem calcinha. Desenroscou o short dos pés e retirou a blusa em um só movimento. Chico não se conteve.
Beijaram-se calma e longamente no início. Chico tocava todo o corpo de Rita com o deslizar das mãos.
Os beijos ficaram mais intensos. Rita o apertava contra si e o mordia. Chico levantou os braços, ela retirou sua camisa e desceu beijando seu corpo enquanto acariciava seu peito e suas costas. Desabotoou sua calça, abriu o zíper e puxou calça e cueca para baixo num gesto violento. Rita o olhava de maneira alegre e lasciva. Empurrou Chico para que sentasse no sofá e logo em seguida começou a chupá-lo. Chupava delicadamente, mas com gosto e vontade. Engolia até onde podia suportar. Lambuzava-se e com a boca cheia olhava pra Chico dizendo com os olhos: “olha como faço isso bem e adoro”
“Se continuar assim eu gozo” disse Chico gemendo e mordendo os lábios.
Rita aumentou o ritmo e fez questão que ele gozasse dentro da sua boca, mas não engoliu. Segurou e fez sinal para que ele esperasse.
Pegou a mochila e foi ao banheiro. Com a porta fechada, se masturbou intensamente como poucas vezes se masturbara. Com uma das mãos alcançou uma seringa na mochila e cuspiu toda a porra com cuidado dentro da seringa. Quando estava gozando enfiou a seringa até o mais fundo que conseguiu e injetou todo o líquido viscoso.
Saiu do banheiro com uma camisinha na boca e a colocou em Chico sem usar as mãos, o impressionando e o excitando com sua habilidade. Transaram intensamente até adormecerem.
No dia seguinte, a campainha acordou Chico que dormia sozinho no sofá da sala. Era da floricultura. Rita lhe enviara flores, poucas vezes recebera flores. No cartão estava escrito apenas: “Obrigada, Beijos! Rita”
Depois disso não teve mais notícias dela.

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