No primeiro final de semana do outono, Danilo conseguiu realizar o que há tempos programava: reunir os antigos amigos na mesma chácara no interior onde costumavam passar os feriados quando mais jovens. Parecia impossível sincronizar a agenda de todos. Cada um tinha tomado um rumo diferente na profissão e na vida pessoal. Uns mudaram de cidade (até de Estado), outros casaram, tiveram filhos, outros se divorciaram, outros voltaram para faculdade, mas ele insistia no mesmo plano a cada feriado prolongado que avistava no calendário.
Vânia, sua esposa, já nem brigava mais por causa da conta de telefone. Começou até achar graça. Sentava na sala com o pequeno Mateus no colo e ficava observando a dedicação e o afeto que o marido demonstrava aos amigos. Depois do segundo ou terceiro telefonema, ela desistia, caminhava até o quarto, colocava o filho no berço e o fazia dormir.
Vânia já estava deitada e sonolenta quando ouviu Danilo desligar o telefone. Ele deitou junto dela e disse:
“Amor, deu certo! Dessa vez, vai todo mundo mesmo!”
“Que ótimo, Dan, mas fala baixo pra não acordar o Mateus.”
“Nossa! Quanto tempo faz, não?”
“Pois é.”
“Vou adorar ver todo mundo junto de novo!”
“Eu também… Dan, apaga a luz e vamos dormir.”
“Ah, apaga você.”
“Não, você deitou por último.”
“Tá bom.”
Danilo levanta, confere se deixou toalhas no varal, se as torneiras estão fechadas, se as portas estão trancadas, apaga as luzes dos três cômodos da casa, beija o rosto de Vânia, já adormecida, e dorme em seguida.
Os fins de tarde de outono são especialmente bonitos. Suas cores e o clima ameno somados à singularidade da beleza do pôr do sol no interior de São Paulo fazem com que o futebol vespertino tenha quase hora marcada para acabar.
Após o futebol, misturam-se jogadores e plateia. Esta, que comentava e se divertia com os lances dos “craques”, agora joga conversa fora junto a eles.
Toni, quase calado, vê um pouco mais ao longe Vânia brincando com Mateus na caixa de areia. Ele se aproxima, permanece atrás deles, observa por um tempo os sorrisos trocados entre mãe e filho e diz:
“Olá!”
Vânia continua sentada vira somente a cabeça e diz:
“Oi, tudo bem?!”
“Tudo indo, né? E você? Como está?”
Ela continua brincando com Mateus e responde sem lhe dirigir o olhar:
“Tudo ótimo.”
“É, no mínimo, curioso ver você aqui com seu filho depois de tantos anos.”
Vânia deixa os brinquedos com o menino, se vira para Toni com um sorriso provocador e diz:
“Por quê?! Senta aqui e me conta.”
Toni sorri, senta próximo à Vânia e diz:
“Você lembra que tem uns 15 anos quê”
“14”
“Você lembra?!”
“Claro que eu lembro! Embaixo daquela árvore ali, também no fim do dia, ou melhor, do feriado, depois de hesitar muito você declarou todo seu amor adolescente por mim.”
“Pois é… Você não tem idéia do quanto eu ensaiei pra dizer aquilo tudo.”
“Eu fiquei esperando o final de semana todo.”
“Mesmo?!”
“Foi.”
“Mas você não dava nem sinal. Aliás, o motivo de ter sido no final do feriado foi esse: caso você me desse um fora eu já estaria indo embora mesmo.”
“Por que não me disse isso quando estávamos juntos?”
“Ah, nem eu mesmo sei… Enfim, já faz tempo e agora você tá casada e tem o Mateus.”
“Pois é, faz tempo.”
Um silêncio trágico reina por 10 segundos. Até Toni dizer:
“E o resto? O Danilo me disse que tá trabalhando.”
“É, tô numa corretora de seguros.”
“Abandonou o direito?”
“Não é isso, sabe? Logo que me formei, nós já casamos, aí veio o Mateus. Eu queria muito ter um filho. Fiquei como mãe por uns tempos, aí o Danilo perdeu o emprego e tive que ajudar também. Aí, foi o que apareceu.”
“Entendo. E tá legal lá?”
“É bacana, o pessoal é legal, a grana não é ruim. Só não gosto porque passo o dia longe do Mateus, mas não tem jeito, né?”
“É, todo mundo tá correndo ultimamente… Mas e a vida de casada?”
“É boa.”
“E o Danilo?”
“Ele é legal.”
“Legal, Vânia?! Legal?!”
“É. Ele é legal.”
“Legal é o tio que me deixa sair com o carro quando estou estacionado em uma rua movimentada. Não se escolhe um cara pra casar e ter filho porque ele é só legal.”
“Ele é legal, ué?”
“Sabe que eu morro de inveja dos sorvetes e chocolates, né?”
“Por quê?!”
“Nunca vi nenhuma mulher acabar de comer um chocolate e dizer ‘ele é legal’. É sempre um exagero de elogios que dá inveja. Não conheço nenhuma mulher que fale do marido com o mesmo entusiasmo que fala de um doce.”
“Ai, como você é bobo! Não é assim. O Danilo é ótimo. Trabalhador, cuida de mim e do Mateus maravilhosamente bem. É atencioso, carinhoso, bom cozinheiro, amigo, tem um coração enorme. Aliás, você sabe que isso aqui é por que ele correu atrás de tudo.”
“Sei sim, ele me ligou várias vezes, mas eu tava sempre trabalhando.”
“Então, sem contar que ele me trata como uma rainha, sempre me prepara uma surpresa, um mimo. É ciumento. Você sabe que eu adoro homens ciumentos.”
“Sei. Você já me disse isso. Que faz com que se sinta mais amada…”
“Exatamente! E ele não fica teorizando sobre tudo todo tempo.”
“Isso foi pra mim, né?”
“Não. Quer dizer, um pouco. Você tem mania de querer questionar tudo, ser sempre do contra. Cansa, sabe? Não tem coisa mais irritante do que uma pessoa que sempre está certa do seu lado. Não precisa ser interessante durante todo tempo. Aliás, que diabos é ser interessante?”
“Não sei. Pode ser um bocado de coisa, tipo”
“Aí ó, já vai começar a teorizar”
“Tá bom. Já parei.”
“Tenho pra mim que não poderia encontrar homem melhor pra mim que o Dan.”
“Se você diz.”
Danilo chega.
“Você vai dar banho no Mateus ou quer que eu dê?”
“Não, eu vou. Vai você e o Toni montar as pizzas.”
“Tá bom. Manja de pizza, Toni?”
“De comer eu sei tudo!”
“Então, vamos lá que vou lhe dar uns toques.”
Os três caminham para a casa. Vânia chama pelo Mateus que corre do banho. Danilo começa a arrumar a cozinha e Toni separa os ingredientes, olhando pro casal e pensando que gostaria de ter uma vida desgraçada igual à deles.