Encontro

No primeiro final de semana do outono, Danilo conseguiu realizar o que há tempos programava: reunir os antigos amigos na mesma chácara no interior onde costumavam passar os feriados quando mais jovens. Parecia impossível sincronizar a agenda de todos. Cada um tinha tomado um rumo diferente na profissão e na vida pessoal. Uns mudaram de cidade (até de Estado), outros casaram, tiveram filhos, outros se divorciaram, outros voltaram para faculdade, mas ele insistia no mesmo plano a cada feriado prolongado que avistava no calendário.
Vânia, sua esposa, já nem brigava mais por causa da conta de telefone. Começou até achar graça. Sentava na sala com o pequeno Mateus no colo e ficava observando a dedicação e o afeto que o marido demonstrava aos amigos. Depois do segundo ou terceiro telefonema, ela desistia, caminhava até o quarto, colocava o filho no berço e o fazia dormir.
Vânia já estava deitada e sonolenta quando ouviu Danilo desligar o telefone. Ele deitou junto dela e disse:

“Amor, deu certo! Dessa vez, vai todo mundo mesmo!”
“Que ótimo, Dan, mas fala baixo pra não acordar o Mateus.”
“Nossa! Quanto tempo faz, não?”
“Pois é.”
“Vou adorar ver todo mundo junto de novo!”
“Eu também… Dan, apaga a luz e vamos dormir.”
“Ah, apaga você.”
“Não, você deitou por último.”
“Tá bom.”
Danilo levanta, confere se deixou toalhas no varal, se as torneiras estão fechadas, se as portas estão trancadas, apaga as luzes dos três cômodos da casa, beija o rosto de Vânia, já adormecida, e dorme em seguida.
Os fins de tarde de outono são especialmente bonitos. Suas cores e o clima ameno somados à singularidade da beleza do pôr do sol no interior de São Paulo fazem com que o futebol vespertino tenha quase hora marcada para acabar.
Após o futebol, misturam-se jogadores e plateia. Esta, que comentava e se divertia com os lances dos “craques”, agora joga conversa fora junto a eles.
Toni, quase calado, vê um pouco mais ao longe Vânia brincando com Mateus na caixa de areia. Ele se aproxima, permanece atrás deles, observa por um tempo os sorrisos trocados entre mãe e filho e diz:
“Olá!”
Vânia continua sentada vira somente a cabeça e diz:
“Oi, tudo bem?!”
“Tudo indo, né? E você? Como está?”
Ela continua brincando com Mateus e responde sem lhe dirigir o olhar:
“Tudo ótimo.”
“É, no mínimo, curioso ver você aqui com seu filho depois de tantos anos.”
Vânia deixa os brinquedos com o menino, se vira para Toni com um sorriso provocador e diz:
“Por quê?! Senta aqui e me conta.”
Toni sorri, senta próximo à Vânia e diz:
“Você lembra que tem uns 15 anos quê”
“14”
“Você lembra?!”
“Claro que eu lembro! Embaixo daquela árvore ali, também no fim do dia, ou melhor, do feriado, depois de hesitar muito você declarou todo seu amor adolescente por mim.”
“Pois é… Você não tem idéia do quanto eu ensaiei pra dizer aquilo tudo.”
“Eu fiquei esperando o final de semana todo.”
“Mesmo?!”
“Foi.”
“Mas você não dava nem sinal. Aliás, o motivo de ter sido no final do feriado foi esse: caso você me desse um fora eu já estaria indo embora mesmo.”
“Por que não me disse isso quando estávamos juntos?”
“Ah, nem eu mesmo sei… Enfim, já faz tempo e agora você tá casada e tem o Mateus.”
“Pois é, faz tempo.”
Um silêncio trágico reina por 10 segundos. Até Toni dizer:
“E o resto? O Danilo me disse que tá trabalhando.”
“É, tô numa corretora de seguros.”
“Abandonou o direito?”
“Não é isso, sabe? Logo que me formei, nós já casamos, aí veio o Mateus. Eu queria muito ter um filho. Fiquei como mãe por uns tempos, aí o Danilo perdeu o emprego e tive que ajudar também. Aí, foi o que apareceu.”
“Entendo. E tá legal lá?”
“É bacana, o pessoal é legal, a grana não é ruim. Só não gosto porque passo o dia longe do Mateus, mas não tem jeito, né?”
“É, todo mundo tá correndo ultimamente… Mas e a vida de casada?”
“É boa.”
“E o Danilo?”
“Ele é legal.”
“Legal, Vânia?! Legal?!”
“É. Ele é legal.”
“Legal é o tio que me deixa sair com o carro quando estou estacionado em uma rua movimentada. Não se escolhe um cara pra casar e ter filho porque ele é só legal.”
“Ele é legal, ué?”
“Sabe que eu morro de inveja dos sorvetes e chocolates, né?”
“Por quê?!”
“Nunca vi nenhuma mulher acabar de comer um chocolate e dizer ‘ele é legal’. É sempre um exagero de elogios que dá inveja. Não conheço nenhuma mulher que fale do marido com o mesmo entusiasmo que fala de um doce.”
“Ai, como você é bobo! Não é assim. O Danilo é ótimo. Trabalhador, cuida de mim e do Mateus maravilhosamente bem. É atencioso, carinhoso, bom cozinheiro, amigo, tem um coração enorme. Aliás, você sabe que isso aqui é por que ele correu atrás de tudo.”
“Sei sim, ele me ligou várias vezes, mas eu tava sempre trabalhando.”
“Então, sem contar que ele me trata como uma rainha, sempre me prepara uma surpresa, um mimo. É ciumento. Você sabe que eu adoro homens ciumentos.”
“Sei. Você já me disse isso. Que faz com que se sinta mais amada…”
“Exatamente! E ele não fica teorizando sobre tudo todo tempo.”
“Isso foi pra mim, né?”
“Não. Quer dizer, um pouco. Você tem mania de querer questionar tudo, ser sempre do contra. Cansa, sabe? Não tem coisa mais irritante do que uma pessoa que sempre está certa do seu lado. Não precisa ser interessante durante todo tempo. Aliás, que diabos é ser interessante?”
“Não sei. Pode ser um bocado de coisa, tipo”
“Aí ó, já vai começar a teorizar”
“Tá bom. Já parei.”
“Tenho pra mim que não poderia encontrar homem melhor pra mim que o Dan.”
“Se você diz.”
Danilo chega.
“Você vai dar banho no Mateus ou quer que eu dê?”
“Não, eu vou. Vai você e o Toni montar as pizzas.”
“Tá bom. Manja de pizza, Toni?”
“De comer eu sei tudo!”
“Então, vamos lá que vou lhe dar uns toques.”
Os três caminham para a casa. Vânia chama pelo Mateus que corre do banho. Danilo começa a arrumar a cozinha e Toni separa os ingredientes, olhando pro casal e pensando que gostaria de ter uma vida desgraçada igual à deles.

Publicado em Contos | Com a tag | Deixe um comentário

12 horas

“Em 12 horas muda tudo…”

Disse meu amigo. Lacônico e com o olhar distante. Imerso em uma tristeza que chegava a causar dor física. Nunca o havia visto desse jeito, assustei-me.
12 horas foi o tempo que ele viu passar desde a hora que viu seu pai falecer em seus braços até a hora que fecharam a lápide.
Eu queria poder fazer alguma coisa por ele. Não sei. Qualquer coisa que fizesse parar a dor, qualquer coisa que o fizesse esquecer, entender, aceitar. Eu queria saber o que falar em uma hora dessas. Proferir a palavra certa, sabe? Aquela palavra que aliviaria, que confortaria. Com todas as minhas forças eu orava à Deus e pedia ajuda, mas não falei sobre Deus pra ele naquele momento. Não era certo; e só reforçaria seu ateísmo e sua revolta contra os sistemas religiosos.
Quem sabe se eu citasse alguma coisa do Saramago, tipo do “As intermitências da morte” que nós dois lemos um após o outro e nos divertíamos com o sujeito que conseguiu trepar com a morte. Mas não, nem Saramago seria suficiente. Nem toda explicação racional e científica seria capaz de ajudar em alguma coisa. Explicaria, sim, mas e daí? Pra que serve uma explicação?
Um bom homem se foi. Não é clichê. Nem querer transformá-lo em santo e apagar suas faltas só pelo fato dele não estar mais entre os vivos. Ele era um homem bom. E se foi. Nós ficamos. Ninguém sabe bem ao certo por que ou pra quê, mas ficamos.
Amigo, faça o que quiser. Sinta, revolte-se, enluteça, invente palavras, acabrunhe-se, chore, cale-se. Sua dor é minha também, se quiser compartilhar. Se não quiser, tome a só pra si e a deixe transpassar por você. Nunca mais seremos os mesmos, mas espero que essa ferida cicatrize, que traga algo melhor que essa dor e esse sofrimento.

Publicado em Contos, Não categorizado | Com a tag | Deixe um comentário

Mega da virada

Não sou de fazer apostas ou jogar na loteria, mas de uns tempos pra cá resolvi que faria um jogo ao menos uma vez por ano. Decidi que a mega da virada seria o meu jogo anual, se a sorte quisesse sorrir pra mim teria essa oportunidade.
Já tinha alguns anos que jogava, mas nem chegava perto do resultado. Teve um ano que consegui não acertar nenhum número e fiquei a pensar se quem não acerta nada mereceria um prêmio também.
Uma amiga me contou que morava perto de uma mulher que adivinhava os resultados do jogo do bicho. Pensei comigo: se ela adivinha bicho pode adivinhar os números também!
O pessoal que mora comigo debochou, falou que era bobagem, mas o método da mulher era tão particular que fui até a casa dela só pra presenciar o acontecimento.
Ela passava um café, colocava na xícara e logo após riscava um fósforo e o apagava no café. Segundo ela, era naquele momento que via as coisas. Aquele efeito produzido pelo fósforo apagado no café que conversava com ela.
“Olha, nunca fiz isso com números, com bicho dá certo.”
“Tenta, por favor.”
Ela olhou, olhou e de repente engatou a falar números. Fiquei espantado e comecei a anotar. Quando terminei de anotar ela olhou pra mim e me deu a xícara. Entendi que era para eu beber e bebi. Ela sorriu. Perguntei quanto custava o trabalho realizado, mas ela não quis receber. Olhei pra ela e disse que se eu ganhasse lhe faria um bom agrado.
Fui correndo pra lotérica, fiz o jogo e voltei pra casa já fazendo planos com o prêmio que receberia.
Em função de uns compromissos, não fiquei em casa no momento do sorteio das dezenas e por isso pedi para o pessoal anotar pra mim o resultado.
Quando eu cheguei fui logo perguntando se eles haviam anotado o resultado do sorteio.
“Anotamos sim, o resultado está lá na sua escrivaninha no seu quarto”
Corri para o quarto, puxei o jogo da gaveta e comecei a conferir. Quase que não acreditei. Levantei,mas minhas pernas bambearam, sentei de novo. A voz falhou, os olhos se encheram de lágrimas, conferi mais uma vez.
“ GANHEI! GANHEI! AHH! GANHEI!
Pulei em cima da cama e comecei a destruir o quarto como um rockstar entediado em quarto de hotel. Com o barulho todos correram para o quarto para ver o que estava acontecendo
“Pelo amor de Deus, pára com isso!”
“AH! GANHEI! GANHEI!
“Calma, não destrói nada! Calma!
“GANHEI!”
Até que me seguraram.
“Olha, calma. A gente precisa te falar uma coisa”
“Me solta, falar o quê?”
“Desculpa”
“Desculpa por quê? Fala logo!”
“Então, na verdade esse aí não é o resultado. A gente sabia que seu jogo estava na gaveta e copiamos os mesmo números em outro papel pra você conferir. O resultado mesmo é esse aqui.”
“Vocês estão me zuando, né?”
Entregaram um papel na minha mão, mas eu amassei antes de ler e joguei longe.
Liguei o computador e fui conferir o resultado. Faltaram cinco dezenas para eu ganhar. Olhei bem pra eles, olhei pro jogo, olhei pro computador e resolvi que ali não poderia mais viver. Comecei a fazer as malas e saí sem se despedir de ninguém.
Hoje minha esposa e eu vivemos uma vida razoável ajudando as pessoas a ganhar no jogo do bicho.

Publicado em Contos | Com a tag | 1 Comentário

Migalhas

Abriu os olhos devagar e se assustou. Aquela não era a sua cama e nem o seu quarto.
“Não acredito! Dormi aqui” Pensou, enquanto retirava com cuidado o braço de cima do corpo dele.
“Não acredito que dormi aqui. E ainda abraçada com ele!”
Levantou-se, recolheu as roupas espalhadas pelo chão, saiu do quarto, fechou a porta com cuidado e foi em direção ao banheiro.
“Acho que vou tomar um banho. Fudida por fudida, truco.”
Pegou a toalha, separou as roupas, fechou o box e abriu o chuveiro. Ficou um tempo deixando a água correr pelo seu corpo.
“O cabelo dele é diferente do meu, não gosto desse xampu. Não deveria ter molhado o cabelo. Não deveria ter inventado essa de tomar banho. Aliás, não deveria nem estar aqui! Nem me dei conta. Quando vi já era de manhã, ele dormia calmo e com uma expressão feliz no rosto. Não posso negar que gostei do que vi. É difícil eu ver esse tipo de coisa, costumo ir embora antes deles dormirem ou durmo antes.”
Desligou o chuveiro, se enxugou, vestiu a roupa da noite anterior, se maquiou e foi para cozinha. Fez uma xícara de café e olhou a geladeira.
“Pão de sete grãos, torrada integral, iogurte, margarina, requeijão e maionese light, cereal, leite semidesnatado. Credo! Parece minha geladeira.”
Era bem cedo de uma manhã bonita. A luz do sol entrava pela cozinha e a atingia. Ela estava sentada passando requeijão em uma torrada.
“Não gosto de fazer isso. Mas só percebo que não é tão bom e que não valeria tanto a pena depois que faço. Antes de acontecer tenho a impressão que será muito bom, fico excitada, me divirto, mas quando chega esse momento eu, sinceramente, gostaria de não ter feito. A única coisa bacana é perceber que alguém ficou feliz.”
“Ele não diz nada, mas sei que ele não gosta muito que saio sem ele, noto pelo jeito de olhar, no tom da voz. Ele não percebe que eu sou carente, muito carente. E quando ele viaja fica pior. Dou para os outros aquilo que sobra do que dou pra ele. Não quero dar para os outros. Quero que ele fique com tudo, que não deixe restar nada. Que não me sobre tempo para os outros. Quero mesmo é que ele me ligue todos os dias, me envie mensagens no celular, passe na minha casa só pra dizer oi, tomar um copo de suco e ir embora. Que me envie e-mails. Interrompa meu sono ou qualquer outra coisa que eu estiver fazendo para me dizer que está vindo para me ver. Que não pode esperar.”
“Acho que ele nunca vai ter esse sentimento de urgência. Nunca vai entender.”
“Nem vou falar pra ele que isso aconteceu. Se ele souber é capaz de pensar que não senti tanta falta dele e não se importar em me deixar sozinha por tanto tempo novamente.”
Levantou-se, conferiu a bolsa e foi embora deixando um box molhado, uma xícara de café com uma marca de batom e migalhas sobre a mesa.

Publicado em Contos | Com a tag | Deixe um comentário

Cuidado

Quando estava terminando sua exposição, já nos agradecimentos, sentiu o celular vibrar. Retirou do bolso enquanto falava e olhou quem era.
“Muito obrigado, encerro minha apresentação por aqui. Desculpe, preciso atender. É importante”
Saiu do auditório ouvindo as palmas.
“Oi Carol”
“Oi amor. Olha, a Patrícia está indo pra rodoviária agora, vou aproveitar a carona”
“Tudo bem, quando chegar lá me liga”
“Ligo. Beijo.”
“Beijo”
Voltou para o auditório para recolher suas coisas.
“Parabéns pela apresentação, senhor Freitas. Todos elogiaram.” Disse a secretária, enquanto retirava a bandeja com as xícaras de café.
“Obrigado, Soraia”
Freitas com o pensamento longe e organizando suas coisas não notava o olhar desejoso de Soraia.
“Tchau Soraia, bom fim de semana.”
“Obrigada. Para o Senhor também”
“Obrigado”
Saiu da sala e após 4 passos retornou.
“Vai fazer o quê depois do trabalho, Soraia?”
Soraia assustada com o retorno inesperado responde.
“Nada. Vou pra casa da minha mãe. Ela não está bem de saúde, sabe?”
“Entendo. Melhoras para sua mãe”
“Obrigada”
Freitas caminha até o estacionamento, entra no carro, pega o telefone e liga para Maurício.
“Alô, Maurício?”
“Fala Freitas! Tudo bem?”
“Tudo beleza!”
“Onde você está?”
“Estou aqui no bar do Geriba, vem pra cá”
“Beleza, estou indo”
“Vem mesmo?”
“Ué, não é pra ir?”
“Claro, é que você sempre recusa os convites que hoje assustei, mas vem sim, tá bom aqui.”
“Ok. Daqui a pouco estou aí”
Freitas passou em frente ao bar procurando vaga para estacionar e viu Maurício e Arnaldo em uma mesa na calçada perto da porta. Estacionou o carro, pensou em voltar para casa, mas foi até o bar.
“Grande Freitas!” Disse Maurício se levantando e cumprimentando o amigo.
“E aí, tudo bem?” Disse Freitas calmo.
“Ótimo! Essa é a melhor hora da semana! É o momento que estamos mais longe de voltar ao trabalho” Disse Arnaldo já enchendo o copo de Freitas com cerveja.
“É, hoje é sexta-feira. A tão esperada sexta-feira. Às vezes eu penso que vocês vivem em função disso aqui” Freitas iria continuar, mas foi interrompido por Maurício.
“Não vai filosofar agora, vai? A que devemos a honra da sua presença na nossa mesa nessa humilde espelunca?”
“A Carol foi pra um congresso. Mal nos falamos essa semana”
“Você está trabalhando muito, cara. Precisa relaxar um pouco. Aliás, com licença que eu vou relaxar um pouco no bilhar com o pessoal ali. Depois vocês entram de dupla” Arnaldo engoliu toda a cerveja do copo em um único gole e se levantou.
“Acho que o Arnaldo está certo, viu Freitas? Você trabalha demais. Nem me lembro quando foi a última vez que veio no bar com a gente”
“O trabalho não tem nada a ver com o bar. Não venho porque a Carol não gosta”
“Não acredito que a Carol proíbe você de vir”
“Não. Ela não proíbe nada. Ela nem comenta, mas sei que ela não gosta que eu beba”
“Mas não precisa beber”
“Tem graça vir aqui, ver vocês bêbados e esse povo todo em estágio de incubação de depressão e não beber?”
“Mas uma coisa é ela não gostar, outra é ela proibir”
“Maurício, é simples. A Fer não gosta de homem barbudo, certo?”
“Certo”
“Você deixa a barba crescer?”
“Não. Faço três vezes por semana”
“É isso. Tem coisas que a gente faz ou deixa de fazer só por saber que desagrada o outro. Porque o outro é importante pra gente”
“É importante, mas não podemos viver em função do outro”
“Não digo viver em função do outro, mas você é o quê sem o outro?”
“Acho que você já está bêbado. Filosofando alto! E que papo é esse que as pessoas aqui são todos depressivos em potencial?”
“Todos somos, mas tem alguns que são mais perigosos. Ou você acha que se esse povo tivesse outra coisa com o que se preocupar e cuidar estariam aqui?”
“Não sei”
“Você acha que se a Carol estivesse em casa eu estaria aqui?”
“Também não é assim”
“Claro, tem as exceções. Tem os que vêm uma vez ou outra, mas não tenho dúvidas que os que estão sempre por aqui tem algum tipo de problema”
“Ei! Eu estou sempre aqui”
“Depois que começou a trabalhar com a gente e depois que começou a namorar a Fer aumentou, diminuiu ou manteve a mesma frenquência de visitas aqui?”
“Diminuiu. Acho que você tem um pouco de razão”
“E você também tem”
“Tenho o quê?”
“Razão quando disse que já to bêbado. Acho que vou embora”
“Já? Espera passar um pouco. E aquela sua secretária, hein?”
“Ela é bonita, né?
“Bonito é você! Ela é linda! E te dá mole pra caramba”
“Que nada, fui puxar papo com ela antes de vir pra cá e ela me deu mó corte”
“Você tá brincando!”
“Verdade. Disse que iria cuidar da mãe. Pode?”
“Vai ver a mãe está doente mesmo”
“Vai saber… Enfim, agora eu vou. Se eu ficar bebo mais. E fica tranqüilo que eu bebo, mas chego em casa. Aí a minha parte da conta. Dá um abraço no Arnaldo”
“Pode deixar. Vou daqui a pouco também, marquei com a Fer mais tarde”
“Aí garoto! Então pára de beber!” Disse Freitas caminhando em direção ao carro.
Foi dirigindo devagar quase apoiando a cabeça no volante que segurava firme com as duas mãos até chegar em casa.
Abriu a porta e sentiu o telefone vibrar, mas deixou tocar. Na caixa postal uma mensagem da Carol.
“Amor? Deve estar no banho, né? Olha, cheguei. Tá tudo certo. Volto amanhã no final da tarde. Não fica aí sozinho, não. Sai um pouco. Liga pra alguém. Tá calor, deve ter alguma coisa interessante pra fazer hoje. Beijo, amo você.”

Publicado em Contos | Com a tag | Deixe um comentário

Distância

No começo Maria ficava um pouco constrangida, mas com o passar do tempo até achava engraçado como as pessoas a olhavam quando começava se maquiar no ônibus. Habilidades que só quem namora à distância desenvolve.
Após a última parada antes de chegar à rodoviária ela puxava um estojo de maquiagem modesto e prático de dentro da bolsa e começava o trabalho que já era quase mecânico. Primeiro a base líquida aplicada uniformemente na pele, depois o pó compacto aplicado na testa, na zona T e também no queixo. Em seguida, o blush nas bochechas e nos olhos, mas sem exagero. Finalizava com a máscara de cílios, corretivo de sobrancelha e um gloss para dar brilho nos lábios.
Sobrava um tempo para observar a paisagem pela janela e pensar.
“Será que dessa vez ele estará lá me esperando? Ai, como eu ficaria feliz se ele estivesse lá com uma flor na mão, que fosse roubada. Com um sorriso incontrolável no rosto e me recebesse com um abraço carinhoso fazendo inveja aos que desembarcam sozinhos e correm para pegar o ônibus local ou um taxi, aos que mendigam uma carona no telefone e ficam lá nas bancas de jornal e nos cafés esperando a atenção pela qual imploraram, mas carinho não se pede por favor.
É o jeito dele. Eu sei que ele me ama, mas custava ser um pouco mais dedicado e atencioso? Custava me ligar de vez em quando só pra perguntar como estou, dizer que está sentindo saudade? Custava vestir uma roupa bonita e fazer a barba pelo menos quando eu venho? Custava emagrecer um pouquinho? Não só por mim ou por estética, mas por ele, pela saúde…Acho que sou muito exigente. Ele é ótimo. Muitas meninas gostariam de namorar com ele.
Quer saber? Exigente nada! Sou bonita também. Sou inteligente, simpática, gostosa. É, sou mesmo. Não sou fresca, não tenho nojinho de engolir. Quero ver ele encontrar outra como eu. Se ele não estiver me esperando vamos ter uma conversa séria.”
O ônibus chegou à rodoviária. Maria se levantou devagar, pegou sua mochila e caminhou pelo corredor olhando pela janela. Ao desembarcar, ajeitou a mochila nas costas e procurou o namorado sem sucesso. Ele não estava à sua espera. Olhou para o relógio e pensou se iria cumprir o que havia determinado.
Seguiu andando em direção o ponto de ônibus local. Ao chegar à esquina observou um grande número de pessoas, carro da polícia e ambulância.
“Se ele tivesse aqui me arrastaria para ver isso. Adora ver acidentes.”
Ao olhar novamente para as pessoas o encontrou em meio aos curiosos com as mãos para trás segurando um buquê de rosas e esticando o pescoço para tentar ver algo. Ela se aproximou, tocou em seu ombro e quando ele virou para ver quem o chamava ela o beijou e o abraçou.
“Eu te amo seu desgraçado.”

Publicado em Contos | Com a tag | Deixe um comentário

Orquídeas

Na sala de visitas Eunice levanta, olha para Rosa e Teresa e diz:
“Vocês querem tomar um café?”
“Claro”. Elas respondem quase em uníssono.
“Eu fiz aqueles biscoitinhos que vocês me passaram a receita. Não ficaram bons iguais aos da Rosa, mas eu gostei. Provem.”
Rosa prova desconfiada, mas sem transparecer e diz:
“Tá uma delícia, mas tá diferente. O que você fez?”
“Ah, eu tenho medo de gordura vegetal hidrogenada. Na minha idade não posso mais abusar. Coloquei margarina mesmo, mas margarina sem óleo hidrogenado. Tem que olhar direito tem margarina que tem óleo hidrogenado.”
“Ficou gostoso.” Diz Teresa.
“Eu nem me preocupo mais com isso. Daqui pra frente é só canseira e consultório médico mesmo.”
“Ah, Rosa tem que cuidar. Eu cuido. Tenho um medo de ficar em cama de hospital. Sabe que nem tenho medo da morte, mas medo de morrer eu tenho bastante.”
“É, você tá certa, mas para de comer é tão difícil.”
As três riem, terminam o café e Rosa se levanta:
“Obrigada pelo café Eunice, mas nós já vamos. Bora Teresa?”
“Não, tá cedo, pega mais um biscoito.” Diz Eunice.
“Não, nós já vamos. Meu netinho sempre passa lá em casa depois que ele sai da escola. Obrigada Eunice”
Elas se despedem Eunice as leva até o portão e acena com a mão quando já estão na esquina.
Rosa acena com a mão. Elas continuam caminhando e Teresa diz:
“Ela tá bem, né? Tá bonita, magra. Não aparenta idade não.”
“Também, nem comer ela come.”
“Toda vida se cuidou, né?”
“Mas você gostou dos biscoitos? Eu não gostei, sou bem mais os meus”
“Eu gostei, ficaram bons também…”
“Será que ela sabe que eu sei que ela saía com o Armando?”
“Não sei, às vezes eu acho que ela sabe, às vezes penso que não.”
“Eu te chamei pra vir embora porque sempre que ela serve o café é pra dizer que já esgotou o tempo das visitas.”
“Imagina Rosa! Ela gosta que a gente venha a casa dela”
“Claro, vive sozinha. Quando era moça pintou e bordou…”
“Ela era bonita. Lembra quando a gente ficava na Avenida domingo à tarde? Todos os moços olhavam pra ela. Inclusive o Armando”
“Pois é… Mas agora ficou sozinha aí. Se a gente não vai lá, quem vai?”
“Você ainda guarda mágoa dela por causa o Armando”
“Não! O Armando me deu tudo. Nunca deixou faltar nada. Cuidava de mim, me deu três filhos…”
“É, não deu tudo. As noites eram dela, né? Pouco antes dele falecer ele quase nem dormia na sua casa”
“Mas quem ficou com ele no hospital? Quem segurou a mão dele até o fim? Eu. Ela era só amante. Eu era companheira. Construímos nossa vida juntos. Nossa família. E eu nem fazia questão de dormir com ele mesmo, era até bom que ele fosse lá”
“Ela parecia gostar. E o Armando também…”
“Acho que sim. O Armando tinha cada gosto…”
“Ai Rosa, admite que ela era bonita! E devia ser boa na coisa.”
“Tá, ela não era feia. Agora os predicados eu já não sei e nem quero saber.”
Elas chegam à casa de Rosa e Teresa diz:
“Vou indo ver meu netinho. Tchau Rosa.”
“Tchau Teresa.”
“Teresa?!”
“Que foi Rosa?”
“Sexta você passa aqui pra gente ir à casa da Eunice?”
“Passo pode deixar”

Publicado em Contos | Com a tag | 1 Comentário