A vida, essa tragédia

Todo adolescente que gosta de rock sonha em ser guitarrista. Todos menos eu. Um pouco antes de entrar na adolescência já ouvia rock e cresci com esse gênero como trilha sonora. Os meus poucos amigos que compartilhavam o mesmo gosto que eu eram fascinados pelos longos solos de guitarras, mas eu só achava legal. Veja bem, não é que eu não ligava, muito pelo contrário. Quando descobri Led Zeppelin tenho absoluta certeza que o mundo parou naquele instante. Nada de mais importante ocorreu no momento em que ouvi o disco quatro do Led. De cara achei que Jimmy Page era um gênio, aliás, ainda o acho.
E claro que não foi só ele que exerceu fascínio sobre mim. Sou dado a fazer listas e minha lista de top 5 melhores guitarristas de todos os tempos sai sem o menor esforço: Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jimmy Page, Edward Van Halen e Wes Montgomery. Esse último que embaralhou tudo que estava certo na minha cabeça, mas vamos com calma, eu chego lá. Em tempo, listas são listas e é óbvio que sua lista de guitarristas é diferente da minha, mas não abro mão de nenhum nome da minha nem se for pra colocar um Duane Allman, Jeff Beck, David Gilmour, Richie Blackmore ou qualquer outro virtuose punhetador de guitarra como Joe Satriani e Steve Vai.
O que aconteceu foi que entre os quatorze e quinze anos eu ganhei um violão dos meus pais e isso foi uma revolução. Costumo dizer pra todo mundo que aprendi tocar violão pra paquerar as meninas, mas a verdade não é bem essa. Tudo bem. Tentei usar isso em meu favor, confesso, mas vamos combinar que um garoto tímido desprovido de boa aparência usa a arma que tem. Contudo, mais do que servir pra tentar paquerar as meninas tocando os sucessos do pop rock Brasil dos anos 80, a música e o violão eram realmente algo maior na minha vida. Esse primeiro violão me fazia colocar os dedos no gelo à noite quando ainda não tinha os famigerados calos nas pontas dos dedos e não sabia que poderia trocar as cordas de aço por nylon. Aliás, isso de deixar esse violão com cordas de aço acabou com o pobre, forçou tanto que descolou o cavalete. Tive que mandar reformar, mas não era um bom violão, quer dizer, era bom porque era o primeiro, o que aprendi os primeiros acordes, as primeiras músicas. Era meu companheiro diário, passava literalmente dia todo com ele nas mãos e com ele descobri que violão podia ser muito legal e que a guitarra definitivamente não era instrumento pra mim. Isso é claro tem a ver com a minha descoberta da música brasileira e os três violonistas que me fizeram, de fato, escolher o violão como meu instrumento: Jorge Ben, João Gilberto e João Bosco. Depois vieram tantos outros, me lembro do primeiro show que vi do Duofel e fiquei maravilhado, mas esses três estão em outro patamar. Recentemente vi um show do João Bosco e me emocionei como poucas vezes na minha vida.
Com todo esse fascínio pelo violão não dava pra continuar com aquele primeiro da adolescência. Consegui uma grana e comprei outro violão. Esse mais sofisticado, originalmente com cordas de nylon, elétrico, formato bem mpbista, sem lugar pra colocar alça, violão para se tocar sentado, com afinador junto com as bandas de equalização, uma beleza. Não era o sonhado violão feito por um luthier, mas era um bom violão e a relação custo benefício surpreendeu positivamente e me deixou plenamente satisfeito.
O problema é que pouco tempo após esse violão eu passei a ser ouvinte de Jazz. Lembra que disse que o Wes Montgomery embaralhou minha cabeça? Pois foi. Com esse violão comecei a estudar sistematicamente música e direcionado para o jazz, suas harmonias, estruturas e escalas. E ouvindo jazz e estudando cheguei naturalmente em Wes Montgomery e ele fez o que todo aquele panteão de grandes guitarristas de rock não conseguiu. Pela primeira vez em toda minha vida eu tive vontade de ser guitarrista. Se você o vir tocando Duke Ellington ou John Coltrane vai concordar comigo. Ele não é desse planeta! É uma beleza que empolga e faz pensar ao mesmo tempo. Razão e emoção dosados na medida. Qual é o problema? Você deve estar se perguntando. As coisas mudam não é mesmo? Segue o baile. O problema é que eu ainda gosto do violão, ainda o tenho sempre por perto, ele é um grande companheiro, temos história juntos, mas a paixão pela guitarra só aumenta ainda que eu ame o violão. E o grande problema mesmo é que não dá pra tocar os dois ao mesmo tempo e nem alternar entre um e outro.
Eles até se parecem, mas são instrumentos completamente diferentes. A guitarra é outro universo a ser descoberto, a novidade, as outras possibilidades, outras experiências, mas o universo do jazz tem sua parte chata, é um clubinho restrito com aquele povo metido a besta que acha que são superiores, mais racionalizado, com o pleno domínio da técnica, aquelas pessoas que cheiram a rolha do vinho antes de beber, sabe? Que bebem cerveja gourmet e que “harmonizam” pratos com as bebidas. Um saco. É claro que os mpbistas também são um porre, mas já estou acostumado com eles e justamente por isso já não os aguento mais. O certo é que ou eu me conformo com o violão e aceito as facilidades que já tenho por já o tocar por tanto tempo, ter um certo domínio, conhecer a sonoridade, os meios e os contextos que estou inserido por causa dele; ou encaro o desafio da guitarra e do jazz. O que seria começar do zero, pois nem guitarra tenho, aliás, a guitarra tem esse complicador também, além dela tenho que comprar um amplificador e ela e o jazz demandam uma dose de energia e tempo consideráveis. É assumir o risco e com isso encarar essa nova empreitada com tudo o que de bom e de ruim possa vir junto com ela.
No fim das contas é o clichê recorrente: escolhas. Toda escolha é uma determinação e toda determinação é uma negação. O problema do dilema não é escolher entre o que é bom e o que é ruim, mas escolher entre o que é bom e o que também é bom.

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Uma resposta para A vida, essa tragédia

  1. Ana Karla disse:

    Sempre achei que no fim você compraria um baixo…rs
    Escolher sempre é complicado, mas é importante pras coisas continuarem a andar…

    Excelente texto!

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